Trabalhava atendendo os funcionários. A menina ouvia todo dia as mesmíssimas reclamações, "Não chegou meu vale transporte" (dá-lhe fazer papelada), "Me machuquei em serviço" (Um pouco mais de papelada), "Quero pedir demissão" (E porque não mais um monte de papelada?)...
Empresa de médio porte, não demorou muito pra todos saberem que naquela semana uma moça havia sido estuprada indo trabalhar as cinco horas da manhã. A garota também soube, mas sem saber o que viria naquele dia.
E aquela tarde era mais uma cheia de papéis e problemas, e teria sido como tantas outras que nem seria lembradas, se não fosse pela mulher simples e miúda que se sentou na mesa da menina. Com olhos fundos, uma tristeza palpável e um certo medo ela entregou a jovem um boletim de ocorrência; era a moça que sofrera um estupro.
Enquanto ela assinava sua própria papelada a menina a observava atentamente, um aperto surgindo, pensando em como ela se sentia, como ela tinha se sentido, os medos, a dor... A empresa como tantas outras, não faria nada, apenas dois dias de folga para ir no hospital sacramentar a papelada e a transferência para um setor mais perto da casa dela. A transferência, que descobriu a menina, vinha sendo solicitada há meses sem ser atendida.
Surgiu uma vontade quase que louca de dizer algo, de abraçar a mulher, de correr em seu socorro, vendo ela assinar com sua letra garranchada folha atrás de folha. Mas ela não conseguiu, apenas na hora de ir embora disse: "Se a senhora precisar de qualquer outra coisa, qualquer coisa, pode voltar", e um sorriso tímido de compreensão.
Então não aguentou, saiu de sua mesa, dizendo que ia ao banheiro, mas foi apenas parar na porta. Uma avalanche de sentimenos a atingiu, respirava fundo e tremia quase que incontrolávelmente.
Sua colega de trabalho, uma que ela nem gostava tanto chegou:
"Você está bem?" Não, ela não estava.
"Posso te abraçar?"
E nos ombros daquela colega ela sucumbiu as lágrimas e soluços, por breves segundos ela era a mulher que partira e a mulher era ela, compartilhando a mesma dor. E assim como a outra, a menina teve que secar suas lágrimas, se recompor, e voltar a trabalhar. Pois ambas precisavam.
02 julho 2009
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